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Estar só

Martha Medeiros

O que mais se lê e se ouve por aí são depoimentos de pessoas que falam da dificuldade de se encontrar alguém. Parece que todo mundo está só, precisando urgentemente de companhia. Talvez por isso eu tenha saboreado com especial prazer um trecho do livro As Horas, de Michael Cunningham. Eu o reli depois de ter visto o filme, e sigo preferindo o filme, que passa uma claustrofobia emocional que as palavras não alcançaram. Mas num determinado aspecto o livro foi mais feliz: na parte em que descreve a necessidade de Laura Brown (no filme, Julianne Moore) de ficar absolutamente sozinha. No filme, ela se refugia num hotel. No livro, lógico, também, mas por escrito fica mais evidente esta necessidade que todos temos, de vez em quando, de não estar em parte alguma, de ficarmos inalcançáveis aos olhos dos outros.

Só existe um local onde podemos ficar 100% sós: dentro da nossa casa. Isso se tivermos a sorte de não ter marido, filhos e uma empregada. Sorte??? Esta mulher enlouqueceu!

Foi só uma provocaçãozinha... Aqui entre nós: de vez em quando não dá vontade de mandar a família inteira para um safári na África e dar folga de vários dias para a empregada? Ficar com a casa todinha pra você, colocar os discos que você quiser, atender o telefone SE quiser, dormir e acordar quando bem entender e ter tempo para ler um livro inteiro, de ponta a ponta, sem interrupção? As que podem estão dando entrevistas para as revistas femininas reclamando da falta de homem. Ninguém nunca está feliz.

Estar só, totalmente só, imperturbável, é um direito e um dever. Não todo o tempo, mas por um breve tempo, o tempo que a gente precisa para reencontrar a si mesma, para resgatar nossa mais pura essência, o tempo que a gente necessita para respirar, suspirar, transpirar, pirar: o que você faz quando ninguém lhe vê fazendo? Essa pergunta faz parte da letra de uma música do Capital Inicial. Não estou filosofando tanto assim.

No cinema você fica com vergonha de chorar. No trânsito o motorista do carro ao lado está vendo você botar o dedo no nariz. Num restaurante, você vai ter que confabular com o garçom. Numa praça, alguém vai lhe perguntar que horas são. Caminhar por uma rua bem movimentada até pode ser uma maneira de ficar só, já que multidões propiciam a invisibilidade. Mas você não pode tirar os sapatos.

Da próxima vez que você se queixar de que não tem ninguém para compartilhar seus bons e maus momentos, tente ver o lado positivo disso. Você tem a você.

Você tem o seu canto. Não precisa pagar uma fortuna por poucas horas num quarto de hotel, como se fosse uma foragida, fazendo o que não gostaria que ninguém visse: sendo você mesma.


Domingo, 6 de abril de 2003.



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